Tudo vai do psicológico
Veja como é o “psicológico” da gente. No estúdio de pilates, há uma aluna que paga a mensalidade no valor de três aulas por semana. Mas acaba freqüentando só duas. Meses a fio, a aluna pagando três aulas e indo só duas, eis que a professora gente boa sugeriu:
_ já que você só está conseguindo vir duas aulas por semana, porque não começa a pagar o valor de duas?
Ela deu um pulo
_nã-nã-não! Ih me conheço. Eu tenho de fazer é assim mesmo. Se eu começar a apagar só duas eu acabo vindo só uma aula.
Vá entender.
É como dizem. Tudo vai do psicológico da pessoa. E falando assim, parece até que a gente anda, pra lá e pra cá, arrastando o psicológico pela coleira.
_ Corre psicológico! Corre, que eu hoje estou com pressa!
Doce ilusão. O psicológico solta um pum, abre os olhos cheio de remelas e dá uma olhada preguiçosa em volta.
Bufa e volta a dormir, indiferente.
E não ha biscoitinho que motive o bicho. Quando o psicológico não quer, não há quem o faça andar. Mas quando quer correr, não tem quem o breque.
_Pára com isso, psicológico! Volta aqui, eu to mandando!
Tenta-se de tudo e nada.
Há os psicológicos de rua, coitados, que vagam a procura de migalhas de atenção. Vez por outra, algum homem solitário e embriagado resolve lhes dar trela. E ainda pior, todos sabem que psicológico de bêbado não tem dono.
As mulheres, durante a TPM, poderiam até usar uma plaquinha no portão: “cuidado com o psicológico”.
Mas de nada adiantaria, porque é impossível prever quando um dócil psicológico deixara de ser inofensivo e partirá para a agressão, sem mais nem menos. Focinheira tampouco ajuda nesse caso.
Há quem tente dar um trato no psicológico.
_ Já para o analista! Determinam.
Lá eles ganham banho e tosa. Alguns de fato, tornam-se mais aptos à boa convivência; passam a pensar mais antes de latir, e mordem somente em casos de extrema necessidade. Outros, contudo, continuam sendo ossos duros de roer.
Políticos são um caso especial. Deveriam levar sempre um saquinho plástico quando vão passear com o psicológico em publico. Muitos deles, como não são adeptos desse habito civilizado, acabam deixando na rua (as vezes nas tvs e nos jornais) porções malcheirosas do material excretado por seus psicológicos. E a gente é que acaba pisando em cima.
Mas não tem raça pior do que psicológico de madame. Você olha , e não da nada por ele. De longe, é até fofo. Vá conhecer um de perto.
São criados dentro de apartamentos, aboletados em verdadeiros divãs aveludados. Crescem e viram psicológicos-almofadinha. No geral, incomodam muito a vizinhança. Isso quando não começam dentro de casa mesmo, confundindo o marido da madame com poste.
No seu prédio deve ter algum. Ele já deve ter acordado você num sábado de manhã. São barulhentos e estridentes, e ainda sofrem de complexo de Édipo – alimentado, é claro, pelas próprias madames, que lhes dão tratamento tatibitate:
_ Volta ati, pisito-logi-tinho da mamãe! Num faiz axim, que é feio!
Ai, só chamando a carrocinha.